NCS - TBL - AULA 3 - 04/03/24
- thikow

- 4 de mar. de 2024
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TBL 3 - Adaptações extrauterinas do RN
TRANSIÇÃO E ADAPTAÇÃO DO RECÉM-NASCIDO À VIDA EXTRA-UTERINA
Para uma efetiva atuação da enfermagem no cuidado ao recém-nascido são necessários conhecimentos sobre a fisiologia fetal, os mecanismos de transição do feto para a vida extra uterina e como o recém-nascido se adapta ao novo ambiente. Também é importante o conhecimento dos fatores de risco que podem levar o neonato a não se adaptar adequadamente e dos problemas mais comuns apresentados na adaptação, afim de poder avaliá-lo através do exame físico e detectar os problemas da transição para a vida extra uterina.
Cabe ressaltar algumas definições, para o entendimento de todo o processo, tais como: período perinatal, que corresponde ao período transcorrido desde a 12ª semana de gestação até o 7° dia de vida (MIURA; PROCIANOY, 1997); e período neonatal, que é o intervalo de tempo desde o nascimento até 4 semanas de vida, sendo que os primeiros sete dias caracterizam o período neonatal precoce e do 7° ao 28° dia, período neonatal tardio (MIURA; PROCIANOY, 1997; KENNER, 2001; SEGRE, 2002).
Transição e adaptação fisiológica
Antes do nascimento, o feto é absolutamente dependente da mãe para suas funções vitais (THOMPSON; ASHWILL, 1996; ASKIN, 2002). Após o nascimento, e com o clampeamento do cordão umbilical, o recém-nascido necessita assumir as funções fisiológicas, antes realizadas pela placenta, passando pelo período de transição, que compreende suas primeiras 24 horas de vida (KENNER, 2001). A maioria dos bebês, tem seu processo de transição cumprido nas primeiras 4 a 6 horas de vida (ASKIN, 2002).
Para a grande parte dos recém-nascidos, a transição para a vida extra-uterina é suave e sem intercorrências, mas para alguns, é retardada ou difícil (KLAUS; FANAROFF, 1995). O período imediato após o nascimento representa um dos mais difíceis do ciclo da vida humana (ASKIN, 2002), evidenciado pelo fato de que mais de 50% da mortalidade infantil, acontece no período neonatal (MIURA; PROCIANOY, 1997; KENNER, 2001). E a metade dos óbitos ocorridos do 28° dia de vida até um ano de idade, são decorrentes de problemas sofridos nesse período (MIURA; PROCIANOY, 1997).
A adaptação do recém-nascido à vida extra-uterina é favorecida pelo trabalho de parto, porque este ocasiona modificações nos sistemas e órgãos do feto. A via de parturição influencia no processo de adaptação, principalmente em relação sistema respiratório, onde problemas como doença da membrana hialina, má adaptação pulmonar, infecção, aspiração de mecônio e pneumotórax, ocorrem em maiores porcentagens em bebês nascidos por cesariana do que por via vaginal. O sistema cardiovascular também é afetado, onde a freqüência cardíaca e os níveis de pressão sistólica e diastólica são mais elevados no parto vaginal nas primeiras 2 horas de vida (SEGRE, 2002).
Devido ao estresse do nascimento, observa-se um considerável aumento dos níveis sangüíneos de catecolaminas (epinefrina e norepinefrina), onde se acredita que esse aumento seja responsável por algumas alterações que ocorrem durante o período de transição, como aumento do débito cardíaco e da contractilidade miocárdica, liberação de surfactante pulmonar, inibição da secreção de líquido pulmonar e promoção de sua reabsorção, estimulação da glicogenólise e indução da lipólise (SEGRE, 2002).
Após o nascimento, ocorrem simultaneamente em todos os sistemas corporais do recém-nascido, ajustes fisiológicos dos sistemas orgânicos (OLDS; LONDON; LADEWIG, 1996; KENNER, 2001), e a viabilidade do concepto dependerá de sua rápida e adequada adaptação à vida extra-uterina, onde as principais e imediatas adaptações da transição são a respiratória, a circulatória e a térmica.
Adaptação cardiovascular
O sistema circulatório fetal funciona como se fosse duas bombas interligadas funcionando em paralelo, e após o nascimento, o arranjo dos ventrículos faz com que a circulação neonatal funcione como uma conexão em série (ROZAS, 1994). Durante o período de transição, a circulação fetal necessita sofrer modificações para se tornar uma circulação neonatal (KENNER, 2001; ASKIN, 2002). Desde o início do desprendimento materno, com o pinçamento do cordão umbilical, as principais modificações são o desaparecimento da
circulação placento-fetal, aumento do fluxo sangüíneo pulmonar e fechamento dos shunts fetais (ROZAS,1994; ASKIN, 2002; PERRY, 2002; PIVA; GARCIA, 2005). Kenner explica essas modificações dizendo que
quando o cordão umbilical é clampeado e o neonato tem sua primeira respiração, a resistência vascular sistêmica aumenta e o fluxo de sangue através do ducto arterioso declina. A maior parte do débito ventricular direito flui através dos pulmões favorecendo o retorno venoso pulmonar para o átrio esquerdo. Em resposta a um volume sangüíneo aumentado no coração e nos pulmões, a pressão atrial esquerda se eleva. Combinada com a resistência sistêmica elevada, essa elevação de pressão resulta em fechamento funcional do forame oval. Dentro de vários meses, o forame oval sofre fechamento anatômico [...] A instalação do esforço respiratório e os
efeitos do aumento da pressão parcial de oxigênio arterial causam uma constrição do ducto arterioso, que fecha funcionalmente 15 a 24 horas após o nascimento. Em torno da terceira a quarta semana, esse desvio sofre fechamento anatômico. O clampeamento do cordão umbilical pára o fluxo sangüíneo através do ducto venoso, fechando funcionalmente essa estrutura.
O ducto venoso se fecha anatomicamente em torno da primeira ou segunda semana. Após o nascimento, a veia e as artérias umbilicais não mais
transportam o sangue e se obliteram (2001, p.2).
O fechamento funcional das estruturas cardíacas fetais (forame oval, canal arterial e ducto venoso), acontece progressivamente, e completa-se em torno de um a dois dias de vida, sendo que o fechamento anatômico pode durar semanas (ROZAS, 1994). Devido aos shunts fetais se fecharem funcionalmente antes de se fecharem anatomicamente, podem ocorrer aberturas intermitentes dessas estruturas, ocorrendo passagem de sangue não oxigenado do lado direito para o esquerdo do coração, levando o recém-nascido a apresentar uma cianose transitória e com o choro, aumenta a pressão da veia cava e átrio direito, que leva ao aparecimento de sopros (KENNER, 2001). A simples presença de sopros não significa, necessariamente, a presença de um problema cardíaco, mas quando são acompanhados de cianose e sinais de dificuldade cardíaca e respiratória devem ser investigados (ASKIN, 2002).
Adaptação respiratória
Durante a gravidez, o feto tem seu sangue oxigenado e gás carbônico eliminado através da placenta, uma vez que seus pulmões estão inativos. Logo após a expulsão, o recém-nascido deve estabelecer sua respiração através dos alvéolos, substituindo o líquido pulmonar por ar atmosférico de maneira apropriada no primeiro minuto de vida (ROZAS, 1994; ASKIN, 2002).
No decorrer da 24ª e 30ª semana de gestação, é produzido surfactante pelas células alveolares, que diminui a tensão superficial, evitando o colabamento dos alvéolos ao término da expiração. Por esse processo, o surfactante faz com que as trocas gasosas sejam facilitadas, a pressão para a insuflação necessária para abertura das vias respiratórias diminuída, a complacência pulmonar melhorada e o esforço respiratório reduzido (KENNER, 2001).
Antes do evento do nascimento, o pulmão permanece repleto de líquido e recebe de 10 a 15% do débito cardíaco total (KLAUS; FANAROFF, 1995; THOMPSON; ASHWILL, 1996; KENNER, 2001; ASKIN, 2002; SEGRE, 2002; TAMEZ; SILVA, 2002). O início da função respiratória é estabelecida por estímulos químicos, térmicos, físicos e sensoriais, como dor e luminosidade (KLAUS; FANAROFF, 1995; THOMPSON; ASHWILL, 1996; KENNER, 2001; ASKIN, 2002; SEGRE, 2002), sendo que a primeira respiração deve ocorrer dentro de 20 segundos após o parto (KENNER, 2001). Após os primeiros minutos de vida, com a expulsão e reabsorção do líquido presente nos pulmões, este enche-se de ar e o fluxo sangüíneo aumenta consideravelmente, cerca de oito a dez vezes (KLAUS; FANAROFF, 1995; TAMEZ; SILVA, 2002).
Com a compressão do tórax ao passar pelo canal vaginal, cerca de um terço do líquido pulmonar, é expelido pela boca e nariz, e os dois terços restantes são absorvidos pela circulação pulmonar e sistema linfático, dentro de 6 a 24 horas após o nascimento (ROZAS, 1994; KLAUS; FANAROFF, 1995; KENNER, 2001). Após o nascimento, com a compressão mecânica do tórax e expulsão do líquido pulmonar, ocorre uma descompressão do tórax, criando-se assim, uma pressão negativa que traz o ar para dentro dos pulmões. A completa expansão pulmonar e distribuição do ar pelos alvéolos ocorre quando o recém-nascido chora, porque o choro cria uma pressão intratorácica positiva, mantendo os alvéolos abertos e forçando o restante do líquido pulmonar para os capilares pulmonares e sistema linfático (ASKIN, 2002). Após as primeiras respirações, o recém-nascido assume sua atividade ventilatória e de oxigenação, com a substituição do espaço antes ocupado pelos fluidos pulmonares por ar atmosférico (ROZAS, 1994; KLAUS; FANAROFF, 1995; KENNER, 2001; TAMEZ; SILVA, 2002).
Adaptação térmica
O organismo materno é responsável pela manutenção da temperatura fetal, e ao ser expulso do ventre materno, o neonato sofre um brusco impacto térmico, tendo que se ajustar ao novo ambiente através da termogênese sem calafrio (CLOHERTY; STARK, 1993; KLAUS; FANAROFF, 1995; ROZAS, 1994; ASKIN, 2002; SEGRE, 2002; TAMEZ; SILVA, 2002). A regulação e manutenção da temperatura é um dos fatores mais críticos na sobrevivência e estabilidade do recém-nascido (TAMEZ; SILVA, 2002), por esse motivo, deve-se proporcionar um ambiente termicamente neutro, para que o consumo de oxigênio seja suficiente para a manutenção da temperatura corporal (CLOHERTY; STARK, 1993; KLAUS; FANAROFF, 1995; ROZAS, 1994; ASKIN, 2002; SEGRE, 2002; TAMEZ; SILVA, 2002).
Logo após o nascimento e com a finalidade de evitar perdas de calor, a criança deve ser colocada em um berço de calor radiante e ser completamente enxuta, principalmente na cabeça, onde uma touca pode ser eficaz contra o resfriamento (THOMPSON; ASHWILL, 1996; OLIVEIRA, 2005). É muito importante manter o recém-nascido aquecido, porque este possui uma labilidade térmica, onde o frio (ou até mesmo calor em excesso), podem provocar alterações metabólicas, como perda excessiva de calorias e acidose metabólica, que dificultam adaptação à vida extra-uterina (ARAÚJO, 1992; TAMEZ; SILVA, 2002). Quando o bebê está apresentando hipotermia, sua taxa metabólica elevará para gerar calor, podendo ocasionar angústia respiratória que pode evoluir para um quadro de acidose metabólica (BRANDEN, 2000).
As crianças nascidas a termo possuem depósitos de gordura marrom, que representam cerca de 2 a 6% do peso do recém-nascido, e se localizam principalmente no pescoço, região interescapular, mediastino, ao redor dos rins e das supra-renais (KLAUS; FANAROFF, 1995; SEGRE, 2002). Esses depósitos são muito vascularizados e enervados, e quando sofrem estresse pelo frio, aumentam a produção de noradrenalina, que atua nesses depósitos, estimulando a lipólise e gerando calor (CLOHERTY; STARK, 1993; MIURA; PROCIANOY, 1997; SEGRE, 2002). Os recém- nascidos prematuros possuem desvantagens para a manutenção da temperatura, porque possuem grande superfície de contato em relação ao peso, menor quantidade de tecido subcutâneo e gordura marrom, incapacidade de consumo de quantidade adequada de calorias para a termogênese (CLOHERTY; STARK, 1993; KENNER, 2001) e muitas vezes, devido aos problemas pulmonares, possuem consumo limitado de oxigênio (CLOHERTY; STARK, 1993).
A manutenção da temperatura corporal no neonato se dá por interações entre a temperatura ambiental, perda e produção de calor, sendo que a capacidade de termorregulação é pouco limitada (KENNER, 2001; ASKIN, 2002). A exaustão do mecanismo de termorregulação pode levar o recém-nascido à morte, por isso, a prevenção da hipotermia é um dos principais objetivos dos cuidados de enfermagem (KENNER, 2001).
Os tipos de mecanismos de perda de calor nos neonatos são: condução, evaporação, convecção e radiação.
As superfícies de baixa temperatura que entram em contato com o recém-nascido contribuem para a condução do calor do neonato para essas superfícies. Deve-se forrar as superfícies e aquecer as mãos e os instrumentos antes de encostar na criança, afim de evitar esse tipo de perda de calor (THOMPSON; ASHWILL, 1996; MIURA; PROCIANOY, 1997; BRANDEN, 2000; KENNER, 2001; TAMEZ; SILVA, 2002).
A evaporação provém do suor e perdas insensíveis de água, que dependem da temperatura ambiente, velocidade e umidade do ar (MIURA; PROCIANOY, 1997). Ocorre quando os fluidos se tornam vapor no ar seco, conseqüentemente, quanto mais seco for o ambiente, maior será a perda de calor do neonato por evaporação (KENNER, 2001; TAMEZ; SILVA, 2002). A evaporação insensível da pele (correspondente a 25% da perda de calor doneonato), da umidade da pele e da mucosa do trato respiratório pode ser evitada mantendo-se a pele do recém-nascido seca (THOMPSON; ASHWILL, 1996).
O mecanismo de perda de calor por convecção ocorre da superfície da pele para o ar ambiente e depende da velocidade do ar e temperatura ambiente (MIURA; PROCIANOY, 1997), onde quanto mais resfriado for o ambiente, maior será a perda de calor por convecção (KENNER, 2001). O ar aquecido que é expirado durante a respiração e a movimentação do ar sobre a pele do recém-nascido contribuem para a perda de calor por convecção, por isso é necessário umedecer e aquecer o oxigênio administrado, quando este for necessário, e na necessidade de transporte da criança, envolvê-la em coeiros ou usar uma incubadora para o transporte (THOMPSON; ASHWILL, 1996).
A transferência de calor da pele do recém-nascido para o ambiente, devido a diferença de temperatura entre eles, caracteriza a perda de calor por radiação (THOMPSON; ASHWILL, 1996; BRANDEN, 2000; TAMEZ; SILVA, 2002). Ocorre principalmente em grandes áreas de superfície, como a cabeça, por esse motivo, deve-se manter sempre a criança vestida, envolta em coeiros e, de preferência, com uma touca (THOMPSON; ASHWILL, 1996). A radiação representa a fonte de perda de calor mais significativa, mas também é o
mecanismo na qual o recém-nascido ganha calor, através do berço de calor radiante e de fototerapia (MIURA; PROCIANOY, 1997).
O neonato se defende da perda de calor através dos mecanismos de controle vasomotor, na qual ocorre uma vasoconstrição periférica, conservando o calor, ou uma vasodilatação periférica, dissipando o calor; isolamento térmico, favorecida pela presença de gordura subcutânea; atividade muscular, que aumenta a produção de calor; e termogênese sem calafrios, através da lipólise da gordura marrom (KENNER, 2001; ASKIN, 2002). A instabilidade térmica tem como fatores de risco a prematuridade, anomalias congênitas, septicemia, asfixia, hipóxia, comprometimento do SNC, aporte nutricional e calórico inadequado, diminuição dos movimentos voluntários, imaturidade do sistema de controle térmico e quantidade de tecido subcutâneo insuficiente (TAMEZ; SILVA, 2002).
Os equipamentos utilizados para aquecer a criança e evitar a perda de calor, como incubadoras e berços aquecidos, podem causar hipertermia. O excesso de calor pode mascarar uma infecção, não detectando uma hipo ou hipertermia associadas a um quadro infeccioso; e pode causar desidratação, uma vez que os aparelhos provocam aumento das perdas insensíveis de água (CLOHERTY; STARK, 1993).
A hipertermia no recém-nascido é considerada quando este apresenta temperatura superior a 37,4°C (SEGRE, 2002; TAMEZ; SILVA, 2002), podendo também apresentar taquipnéia, taquicardia, irritabilidade, desidratação (SEGRE, 2002; TAMEZ; SILVA, 2002), intolerância alimentar, diminuição ou aumento da atividade, choro fraco e acidose metabólica (TAMEZ; SILVA, 2002). Deve sempre ser detectada e evitada, porque pode levar o recém nascido a óbito (SEGRE, 2002).
A garantia de um ambiente termicamente neutro, o controle e a manutenção da temperatura do recém-nascido são tarefas prioritárias da enfermagem, que se baseiam no conhecimento dos mecanismos de controle térmico, perda de calor e dos riscos que a instabilidade térmica pode trazer ao neonato (TAMEZ; SILVA, 2002).
Outras adaptações
Além das principais e imediatas adaptações à vida extra-uterina – circulatória, respiratória e térmica – o recém-nascido também passa pelas adaptações hepática, renal, digestiva, imunológica, hematopoiética, neurológica e metabólica.
O sistema hepático do recém-nascido é imaturo, mas tende a funcionar adequadamente em situações não-patológicas. De acordo com Kenner (2001), o fígado é responsável por:
- liberação da bilirrubina: a bilirrubina é um subproduto da degradação das hemácias, que à medida que envelhecem, se tornam fragilizadas e são eliminadas da circulação pelo sistema fagocitário, sendo que as proteínas e o ferro são armazenados para uso posterior. Após deixar o sistema fagocitário, a bilirrubina se liga à albumina plasmática e no estado de insolubilidade em água, é chamada de bilirrubina indireta ou não conjugada. Para ser eliminada do organismo, a bilirrubina indireta precisa se tornar solúvel, sendo então convertida em bilirrubina direta ou conjugada. A conjugação ocorre no fígado, onde a bilirrubina se junta ao ácido glicurônico com o auxílio da enzima glicuronil transferase, gerando uma bilirrubina hidrossolúvel;
- coagulação sangüínea: devido a ausência de atividade bacteriana no trato gastrointestinal, o recém-nascido não tem condições de sintetizar vitamina K (responsável pela ativação de fatores de coagulação) satisfatoriamente, o que o torna suscetível a desenvolver hemorragias, principalmente a doença hemorrágica do recém-nascido, que pode ser prevenida pela administração de vitamina K após o nascimento;
- metabolismo dos carboidratos: de 4 a 6 horas após o nascimento, a principal fonte de energia do neonato é a glicose, que é armazenada no fígado sob a forma de glicogênio. Nas primeiras 3 horas após o nascimento, devido ao trabalho de parto e parto, cerca de 90% dessa reserva de glicogênio é utilizada. A reserva de glicogênio pode ser rapidamente diminuída em situações estressantes de hipotermia, hipóxia e alimentação retardada, levando o neonato a um estado de hipoglicemia (taxas sangüíneas inferiores a 40 mg/dL);
- armazenamento de ferro: o fígado do recém-nascido contém ferro suficiente, numa gestação a termo e desde que a mãe tenha ingerido ferro suficiente, para produzir hemácias até 5 meses de idade (KENNER, 2001).
O feto é capaz de produzir urina e contribuir para a produção do líquido amniótico por volta da 10ª a 16ª semana de gestação. Ao nascimento, ocorre um aumento da resistência vascular sistêmica e uma diminuição do fluxo renal, o que acarreta uma diminuição do fluxo
glomerular (SEGRE, 2002). O sistema renal do recém-nascido é um pouco imaturo, o que o torna suscetível, em casos de diarréias e vômitos, à desidratação, acidose e desequilíbrio eletrolítico. Os rins do neonato são ineficazes na secreção de íons de hidrogênio nos túbulos renais para a manutenção do equilíbrio ácido-básico, porque os túbulos renais são curtos e estreitos, inibindo a concentração e acidificação da urina (KENNER, 2001).
Após o nascimento, o neonato precisa assumir as funções antes realizadas pela placenta, que inclui o metabolismo da água, proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais, afim de manter um crescimento e desenvolvimento adequados (KENNER, 2001). Mas devido a imaturidade do sistema digestivo, o recém-nascido apresenta dificuldades em metabolizar o alimento, em virtude de deficiência de enzimas pancreáticas e hepáticas (THOMPSON; ASHWILL, 1996). Apesar do feto poder deglutir líquido amniótico, a coordenação da sucção e deglutição se dá em torno da 35ª semana de gestação, assim, um recém-nascido a termo é capaz de sugar e deglutir o leite sem dificuldades (SEGRE, 2002). A capacidade gástrica no neonato, após o nascimento, é de 40 a 60 ml (que vai aumentando à medida das alimentações subsequentes); o tempo de esvaziamento gástrico é de 2 a 4 horas; e a peristalse é rápida, por isso o neonato carece de ingesta alimentar em pequenos volumes e com maior freqüência (KENNER, 2001). Devido à frouxidão do esfíncter esofágico, o recém-nascido pode apresentar regurgitação da alimentação, que é uma situação transitória e tende a se resolver com o tempo (SEGRE, 2002).
O sistema imunológico do recém-nascido é deficiente, e com o evento da parturição, ocorre uma exposição do neonato às substâncias ou agentes que não estavam presentes intra útero, o que ativa os componentes da resposta imunológica (KENNER, 2001). Por isso, é necessário o pleno funcionamento do sistema imunológico do feto e recém-nascido para a diminuição da suscetibilidade a infecções, sejam elas bacterianas, virais, parasitárias ou fúngicas. A pele, mucosas, secreções e enzimas atuam como primeira linha de defesa do recém-nascido, em seguida fazendo parte deste sistema imunológico, entram em ação os linfócitos, fagócitos e granulócitos. A imunidade neonatal é afetada em recém-nascidos pequenos para a idade gestacional, hiperbilirrubinêmicos e filhos de mães que abusaram de drogas ou medicações (MIURA; PROCIANOY, 1997).
A vida útil das hemácias fetais tem cerca de 90 dias, sendo que nos adultos é de 120 dias. Com a degradação das hemácias após o nascimento, o recém-nascido pode apresentar uma anemia fisiológica, porque possui hemácias com uma meia-vida de 60 a 70 dias, quando a termo, e de 35 a 50 dias, quando prematuro. Por volta dos 3 meses de vida, a contagem de hemácias está dentro dos limites de normalidade (KENNER, 2001).
As funções neurológicas do recém-nascido são, em sua maioria, primitivas (THOMPSON; ASHWILL, 1996) e controladas pelo tronco cerebral e medula espinhal. Apesar de não estar totalmente desenvolvido, o sistema neurológico realiza as funções necessárias para a sobrevivência do neonato, como o estímulo às respirações iniciais, a manutenção do equilíbrio ácido-básico e regulação da temperatura corporal. O cérebro necessita de aporte constante de glicose e níveis elevados de oxigênio para manter um metabolismo celular adequado (KENNER, 2001).
O neonato apresenta um sistema endócrino anatomicamente maduro mas funcionalmente imaturo. Os hormônios secretados pelas glândulas endócrinas, como hormônio do crescimento, cortisol e catecolaminas, auxiliam o recém-nascido na sua adaptação extra-uterina (KENNER, 2001). Durante o período intra-uterino, o feto tem seu suprimento e manutenção de glicose efetuado pela mãe, onde a utiliza ou armazena na forma de glicogênio no fígado. Após o nascimento, o neonato deverá fazer a produção e manutenção da glicose afim de manter o equilíbrio homeostático da glicose, que é regulada pela insulina e utilizada por todos os sistemas corporais como fonte de energia. O neonato se torna vulnerável ao desequilíbrio da glicose pela interrupção do fornecimento materno e consumo do glicogênio armazenado, bem como pela insuficiência do pâncreas quanto a liberação da insulina (TAMEZ; SILVA, 2002).


Material extra
Material TBL 3
Material pessoal - Aula TBL 3
Reflexão: Hoje retornamos um pouco para o semestre passado e relembramos a circulação fetal para que pudéssemos falar sobre adaptações do RN ao nascer. O Dante trata o assunto com bastante simplicidade e destreza, porém acho que as aulas são corridas o que em alguns momentos nos deixam um pouco confusos e cansados no raciocínio. Aprendemos que as principais adaptações são referentes ao sistema circulatório, respiratório e térmico.

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